Há bem pouco tempo, o Ocidente se deparou com uma nova
ameaça de guerra em grandes proporções, em termos de possíveis perdas de vidas,
de destruição e de pessoas que são obrigadas a abandonarem suas casas, terras e
trabalhos, oriundas dos países em conflito, os refugiados.
A guerra, até então, estava restrita tão somente a área
pertencente ao Iraque, efeito colateral da guerra perpetrada pelos Estados
Unidos da América do Norte, para extirpar do poder o Presidente iraquiano Saddam
Hussein, em decorrência dos ataques as Torres Gêmeas, em Nova York.
Dessa ofensiva no deserto, o Afeganistão também foi atacado
na busca do líder do grupo terrorista Al-Quaeda, Osama Bin Laden, que organizou
e protagonizou os ataques aos EUA.
Diante dos ataques norte-americanos, grupos terroristas mais
radicais surgiram e, dentre eles, movidos por uma ideologia sanguinária,
fundamentalista e irracional o “Estado Islâmico”. Grupo formado por homens
dispostos a morrer e, principalmente, matar em nome de um paraíso utópico na
terra.
Diante desse crescimento radical, sem precedentes na
história contemporânea, entre Ocidente e Oriente muçulmano, surge uma nova onda
política religiosa: o califado.
O califado seria um “novo Estado Islâmico” mais abrangente e
pautado na união de todo ou boa parte do islã de várias regiões.
O princípio do “Estado Islâmico”, na versão contemporânea,
surgiu no Iraque, como “Estado Islâmico do Iraque”, a partir de outubro de
2006, e, em seguida, passou-se a denominar “Estado Islâmico do Iraque e Levante”,
em abril de 2013.
A pretensão do grupo, como indica um mapa que é livremente
compartilhado através da internet, entre seus simpatizantes, é um mundo muçulmano
além dos países do Oriente Médio, parte da Europa e parte da África. O domínio
seria bastante extenso, com milhões de habitantes em seu território.
Com a formação desse novo Estado, seria proclamado um líder
denominado de Califa, em árabe “sucessor”, título dado aos substitutos de Maomé
na liderança do islã.
O Califa seria um líder único do Estado islã e, também, com
um caráter sagrado.
O califado caracteriza-se por ser uma instituição medieval,
fundamentando sua ideologia na comparação com os conquistadores islâmicos do
Império Bizantino e do Império Persa.
Os jihadistas, ou seja, aqueles que lutam pelo “Estado
Islâmico”, afirmam que a restauração do califado é uma obrigação religiosa e
seria pecaminoso não a cumprir.
Para a criação do grande califado, os atuais líderes
jihadistas declararam inexistentes e inválidos todos os demais emirados, estados
e, inclusive, as organizações assemelhadas, como por exemplo, o grupo
terrorista Al-Quaeda.
A existência de um califado em pleno século XXI não seria,
em si, algo estranho, espantoso, sui
generis, até porque ainda temos instituições que remontam da Idade Média,
como o papado, a monarquia inglesa, a japonesa, a espanhola.
O que difere o califado das outras instituições de cunho
medieval é a intolerância religiosa e a extremada violência perpetradas contra
infiéis e dissidentes.
O Império Árabe teve sua maior abrangência a partir do
Paquistão até Portugal, na dinastia Omíada, mas se tornou bastante impopular
entre os mulçumanos por privilegiar os árabes em relação aos convertidos de
outras origens e chegava a desencorajar as conversões em prol da arrecadação de
impostos, tendo em vista os infiéis pagarem mais tributos.
Diante dessa política excludente, partiu da Ásia Central, em
751, um movimento revolucionário para derrubar o clã Omíada e pôr em seu lugar
os Obássidas.
Os Obássidas fundaram a cidade de Bagdá estiveram à frente
da civilização islâmica em seu período mais próspero, porém, foi nesse momento
que o grande império começou a se dividir, ou seja, uma parte mais ocidental
com capital em Córdoba, Espanha, onde abrigou o último Omíada e a parte
oriental com capital em Bagdá.
Nessa divisão, os Omíadas usavam uma bandeira branca; os
Obássidas, adotaram uma bandeira negra, que hoje é usada por grupos radicais,
como o Al-Quaeda e o Estado Islâmico.
Tanto em Córdoba quanto em Bagdá, as minorias religiosas, como
os judeus, os cristãos eram respeitados. Apesar de serem considerados
cidadãos/súditos de segunda classe, eram obrigados a pagarem um imposto
especial, em contrapartida não eram maltratados, ou convertidos
compulsoriamente ao islã, tinham liberdade para praticarem seus próprios
costumes, resolviam seus assuntos por suas próprias leis etc.
Com o passar do tempo, diversos conflitos fragmentaram os
domínios muçulmanos, principalmente a partir do século IX, e, em meados do
século X, uma dinastia persa tomou Bagdá e reduziu mais ainda o califado.
Pois bem, em 1924, quando uma revolução republicana turca de
Mustafá Kemal, aboliu o cargo de Sultão – título dado ao antigo imperador da
Turquia e de alguns soberanos de países muçulmanos, as bases do califado começaram
a ruir definitivamente. Após esse período, precisamente no ano de 1927,
começando pelo rei do Nejd, atual Arábia Saudita, começaram a adotar o título
de “rei”, que até então, era adotado por apenas cristãos e pagãos.
A partir desse momento, a civilização árabe, acossada por
conflitos internos e por inimigos externos, tornou-se cada vez mais
conservadora, até a derrota dos otomanos e a total submissão aos imperialismos
cristãos dos séculos XIX e XX.
Com a submissão aos europeus, as massas empobrecidas, a
ocidentalização das elites urbanas, o abandono das tradições foi considerado
uma traição. Talvez todos os problemas fossem superados se as revoluções
nacionalistas da segunda metade do século XX tivessem trazido prosperidade e
igualdade aqueles povos, entretanto, as lideranças acabaram sendo cooptadas ou
alijadas do poder pelo imperialismo ocidental. Restou ao povo, empobrecido e
excluído, somente a religiosidade.
Alguns, desprovidos de boas intenções intelectuais ou
embebecidos pela religiosidade, buscam aspectos semelhantes entre os nazistas e
o Estado Islâmico. Na verdade, a única similaridade está no aspecto do grande
fascínio por arcaicos mitos de uma suposta superioridade de um passado
grandioso, soberbo e ilusório.
Embora o “Estado Islâmico” recorra a símbolos e títulos
medievais, suas ações são perpetradas com o que tem de mais moderno, tanto no
uso da mídia, da internet, marketing, na captação de financiamento, no
recrutamento de novos simpatizantes, principalmente nas zonas de conflito,
Europa e África.
A grande preocupação dos governos europeus e EUA, é o alto
grau de violência do grupo, nas zonas de conflito, bem como a enorme quantidade
de refugiados de guerra que procuram segurança e sobrevivência na Europa e
resto do Mundo e a possível queda de algumas potências econômicas e militares
das regiões em conflito, principalmente, Síria, Líbano, Jordânia, países da
península arábica e Turquia.
O jogo apenas começou, o final é totalmente imprevisível.

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