segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Califado



Há bem pouco tempo, o Ocidente se deparou com uma nova ameaça de guerra em grandes proporções, em termos de possíveis perdas de vidas, de destruição e de pessoas que são obrigadas a abandonarem suas casas, terras e trabalhos, oriundas dos países em conflito, os refugiados.

A guerra, até então, estava restrita tão somente a área pertencente ao Iraque, efeito colateral da guerra perpetrada pelos Estados Unidos da América do Norte, para extirpar do poder o Presidente iraquiano Saddam Hussein, em decorrência dos ataques as Torres Gêmeas, em Nova York.

Dessa ofensiva no deserto, o Afeganistão também foi atacado na busca do líder do grupo terrorista Al-Quaeda, Osama Bin Laden, que organizou e protagonizou os ataques aos EUA.

Diante dos ataques norte-americanos, grupos terroristas mais radicais surgiram e, dentre eles, movidos por uma ideologia sanguinária, fundamentalista e irracional o “Estado Islâmico”. Grupo formado por homens dispostos a morrer e, principalmente, matar em nome de um paraíso utópico na terra.

Diante desse crescimento radical, sem precedentes na história contemporânea, entre Ocidente e Oriente muçulmano, surge uma nova onda política religiosa: o califado.

O califado seria um “novo Estado Islâmico” mais abrangente e pautado na união de todo ou boa parte do islã de várias regiões.

O princípio do “Estado Islâmico”, na versão contemporânea, surgiu no Iraque, como “Estado Islâmico do Iraque”, a partir de outubro de 2006, e, em seguida, passou-se a denominar “Estado Islâmico do Iraque e Levante”, em abril de 2013.

A pretensão do grupo, como indica um mapa que é livremente compartilhado através da internet, entre seus simpatizantes, é um mundo muçulmano além dos países do Oriente Médio, parte da Europa e parte da África. O domínio seria bastante extenso, com milhões de habitantes em seu território.

Com a formação desse novo Estado, seria proclamado um líder denominado de Califa, em árabe “sucessor”, título dado aos substitutos de Maomé na liderança do islã.

O Califa seria um líder único do Estado islã e, também, com um caráter sagrado.

O califado caracteriza-se por ser uma instituição medieval, fundamentando sua ideologia na comparação com os conquistadores islâmicos do Império Bizantino e do Império Persa.

Os jihadistas, ou seja, aqueles que lutam pelo “Estado Islâmico”, afirmam que a restauração do califado é uma obrigação religiosa e seria pecaminoso não a cumprir.

Para a criação do grande califado, os atuais líderes jihadistas declararam inexistentes e inválidos todos os demais emirados, estados e, inclusive, as organizações assemelhadas, como por exemplo, o grupo terrorista Al-Quaeda.

A existência de um califado em pleno século XXI não seria, em si, algo estranho, espantoso, sui generis, até porque ainda temos instituições que remontam da Idade Média, como o papado, a monarquia inglesa, a japonesa, a espanhola.

O que difere o califado das outras instituições de cunho medieval é a intolerância religiosa e a extremada violência perpetradas contra infiéis e dissidentes.

O Império Árabe teve sua maior abrangência a partir do Paquistão até Portugal, na dinastia Omíada, mas se tornou bastante impopular entre os mulçumanos por privilegiar os árabes em relação aos convertidos de outras origens e chegava a desencorajar as conversões em prol da arrecadação de impostos, tendo em vista os infiéis pagarem mais tributos.

Diante dessa política excludente, partiu da Ásia Central, em 751, um movimento revolucionário para derrubar o clã Omíada e pôr em seu lugar os Obássidas.

Os Obássidas fundaram a cidade de Bagdá estiveram à frente da civilização islâmica em seu período mais próspero, porém, foi nesse momento que o grande império começou a se dividir, ou seja, uma parte mais ocidental com capital em Córdoba, Espanha, onde abrigou o último Omíada e a parte oriental com capital em Bagdá.

Nessa divisão, os Omíadas usavam uma bandeira branca; os Obássidas, adotaram uma bandeira negra, que hoje é usada por grupos radicais, como o Al-Quaeda e o Estado Islâmico.

Tanto em Córdoba quanto em Bagdá, as minorias religiosas, como os judeus, os cristãos eram respeitados. Apesar de serem considerados cidadãos/súditos de segunda classe, eram obrigados a pagarem um imposto especial, em contrapartida não eram maltratados, ou convertidos compulsoriamente ao islã, tinham liberdade para praticarem seus próprios costumes, resolviam seus assuntos por suas próprias leis etc.

Com o passar do tempo, diversos conflitos fragmentaram os domínios muçulmanos, principalmente a partir do século IX, e, em meados do século X, uma dinastia persa tomou Bagdá e reduziu mais ainda o califado.

Pois bem, em 1924, quando uma revolução republicana turca de Mustafá Kemal, aboliu o cargo de Sultão – título dado ao antigo imperador da Turquia e de alguns soberanos de países muçulmanos, as bases do califado começaram a ruir definitivamente. Após esse período, precisamente no ano de 1927, começando pelo rei do Nejd, atual Arábia Saudita, começaram a adotar o título de “rei”, que até então, era adotado por apenas cristãos e pagãos.

A partir desse momento, a civilização árabe, acossada por conflitos internos e por inimigos externos, tornou-se cada vez mais conservadora, até a derrota dos otomanos e a total submissão aos imperialismos cristãos dos séculos XIX e XX.

Com a submissão aos europeus, as massas empobrecidas, a ocidentalização das elites urbanas, o abandono das tradições foi considerado uma traição. Talvez todos os problemas fossem superados se as revoluções nacionalistas da segunda metade do século XX tivessem trazido prosperidade e igualdade aqueles povos, entretanto, as lideranças acabaram sendo cooptadas ou alijadas do poder pelo imperialismo ocidental. Restou ao povo, empobrecido e excluído, somente a religiosidade.

Alguns, desprovidos de boas intenções intelectuais ou embebecidos pela religiosidade, buscam aspectos semelhantes entre os nazistas e o Estado Islâmico. Na verdade, a única similaridade está no aspecto do grande fascínio por arcaicos mitos de uma suposta superioridade de um passado grandioso, soberbo e ilusório.

Embora o “Estado Islâmico” recorra a símbolos e títulos medievais, suas ações são perpetradas com o que tem de mais moderno, tanto no uso da mídia, da internet, marketing, na captação de financiamento, no recrutamento de novos simpatizantes, principalmente nas zonas de conflito, Europa e África.

A grande preocupação dos governos europeus e EUA, é o alto grau de violência do grupo, nas zonas de conflito, bem como a enorme quantidade de refugiados de guerra que procuram segurança e sobrevivência na Europa e resto do Mundo e a possível queda de algumas potências econômicas e militares das regiões em conflito, principalmente, Síria, Líbano, Jordânia, países da península arábica e Turquia.

O jogo apenas começou, o final é totalmente imprevisível.

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