Antonio Carlos Alves Lobo [1]
“Era
ele um pastor que servia em casa do que era soberano da Lídia. Devido a uma
grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no
local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver uma coisa, desceu por lá
e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de
bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um
cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão
um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem
reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o
que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com seu anel. Estando
ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do
anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso,
tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se
tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora
o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos,
experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse
o engaste para dentro se tornava invisível; se voltasse para foram ficava
visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam
junto ao rei. Uma vez lá chegando, seduziu a mulher do soberano, e com o
auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se tomou o poder.”
O fragmento acima exposto foi extraído do Livro II, da obra “A República” de Platão (427-347 a.C.).
Pois bem. Através do famoso mito do anel de Giges, Platão, nos esclarece que de forma disfarçada, o homem é levado pelo desejo de ter sempre mais poder, conforto, vantagens etc., e que somente a “Lei” reconduzirá o homem ao respeito pela igualdade, pois apenas agiremos de forma espontânea e livre de objetivos nefastos, através da força da “Lei”.
Platão expõe que ninguém é justo, honesto, íntegro voluntariamente, mas quem pratica atos de justiça e honestidade só o faz de forma impelida ou por ser impotente para deixar aflorar suas ambições ou por ser coagido, por temer represarias da “Lei” ou da moral por parte daqueles com os quais convive e dos “guardiões” da justiça.
É, portanto, por não sermos autossuficientes e termos essa “perversa” característica que demos origem às leis, aos contratos, as convenções, aos acordos, pois, se deixarmos por nossa conta, com certeza, privilegiaríamos os nossos próprios interesses, fazendo tudo o que nos aprouver.
Platão transmite, com o mito do anel de Giges, que tanto faz se colocarmos um anel desses no dedo de um homem justo e outro no dedo de um homem injusto, o fato é que não encontraremos ninguém com temperamento suficientemente forte para permanecer fiel à justiça e resistir à tentação de se apoderar dos bens e dos benefícios de outrem.
Com esse poder e com a certeza da impunidade, o home se sente em deus entre seus pares. Assim, Platão diz que existindo dois anéis como este, e o homem justo pusessem um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster de bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado a tirar a vontade o que quiser do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse. De tudo isso, Platão, afirma que é uma grande prova, que ninguém é justo por sua vontade, mas forçado, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as.
Para Platão, todos os homens acreditam que a injustiça lhes é muito mais vantajosa, individualmente que a justiça e que eles têm todas as razões para creditarem nisso. Só se faz o bem por não se poder fazer impunemente o mal.
Por fim, uma das maiores mazelas da sociedade é a corrupção. A corrupção só prevalece quando o Direito cede lugar às manobras escusas dos Tribunais, dos magistrados, dos advogados, daqueles que produzem a lei, assim, todos asseguram entre si, o PODER e a certeza da impunidade.
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[1] Licenciado em Ciências pela Universidade Estadual do Ceará - UECE, Bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR, Especialista em Processo Civil, pela Faculdade Integrada do Ceará - FIC, MBA em Gestão Pública e Gerência de Cidades, pela UNINTER/PR.

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