Na escola,
nas ruas, nas conversas descontraídas nos bares e até mesmo em família nos
ensinaram que o famigerado Nero (Lucius Domitius Claudius Nero, 37-68), que foi
imperador de Roma de 54 a
68, autor e executor do célebre incêndio que se propagou na famosa cidade
capital do Império romano no ano de 64, ocasionado milhares de mortes.
Fala-se
ainda que tal incêndio destruísse aproximadamente doze mil casas. Ainda se diz
que o incêndio foi iniciado na madrugada de 18 a 19 de julho e que o
incêndio durou nove dias.
Deixando
de lado a possibilidade de Nero ser um piromaníaco - para a psiquiatria,
consiste no desejo mórbido e incontrolável de provocar incêndios,
queimar ou atear fogo
às coisas, mas parece que a história não é verdadeira.
As
acusações apóiam-se em um manuscrito do historiador Tácito (Públio Cornélio
Tácito ou simplesmente Tácito, foi um historiador, orador e político romano.
Ocupou os cargos de questor, pretor, cônsul e procônsul da Ásia. É considerado
um dos maiores historiadores da Antiguidade).
Ocorre que o documento, ora em
comento - existe a possibilidade de ser apócrifo - tenha sido adulterado por
bons e fiéis monges do século XI que, para dar grandeza ao seu tempo, não se
constrangeram em incriminar
Nero.
A hipótese
de Nero ter colocado fogo em Roma, segundo alguns historiadores, é falso em
vários aspectos:
a) ao
dizer que Nero atribuiu o incêndio aos cristãos, desconheciam que esse termo
“cristão” só seria usado muito tempo depois, portanto distante da data do
incêndio;
b) ao
admitir que o imperador ateou fogo na cidade, ou o conduziu pessoalmente, mesmo
não tendo feito, assistiu a tudo tocando lira. O erro ocorre uma vez que
naquele décimo quarto dia antes das calendas de agosto de 817, isto é, desde a
fundação da cidade Nero e sua família mais alguns comensais encontravam-se na
cidade litorânea de Anzio, a centenas de quilômetros de Roma;
c) ao
afirmar que Nero mandou crucificar os cristãos e, depois de besuntá-los com
produto inflamável, ateou-lhes fogo para que servissem de iluminação aos
jardins palacianos, ou que mandou lançá-los às feras no Coliseu.
Na última
afirmação encontram-se rapidamente quatro erros.
Primeiro, a cruz era castigo
para estrangeiros; segundo, que o corpo humano incendiado não ilumina, porque
carboniza; terceiro, que o hábito de lançar cristãos às feras só terá início
nos tempos de Trajano (68 a
117); por último, o Coliseu só foi construído alguns anos depois, em torno do
ano 80.
Pois é, a importância
de se apurar com muito cuidado certos fatos tidos como verdadeiros, pois muitas
vezes a mentira prevalece sobre a verdade e permanece por anos, décadas ou
séculos.

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