terça-feira, 6 de outubro de 2015

Nero não pôs fogo em Roma



Na escola, nas ruas, nas conversas descontraídas nos bares e até mesmo em família nos ensinaram que o famigerado Nero (Lucius Domitius Claudius Nero, 37-68), que foi imperador de Roma de 54 a 68, autor e executor do célebre incêndio que se propagou na famosa cidade capital do Império romano no ano de 64, ocasionado milhares de mortes.

Fala-se ainda que tal incêndio destruísse aproximadamente doze mil casas. Ainda se diz que o incêndio foi iniciado na madrugada de 18 a 19 de julho e que o incêndio durou nove dias.

Deixando de lado a possibilidade de Nero ser um piromaníaco - para a psiquiatria, consiste no desejo mórbido e incontrolável de provocar incêndios, queimar ou atear fogo às coisas, mas parece que a história não é verdadeira.

As acusações apóiam-se em um manuscrito do historiador Tácito (Públio Cornélio Tácito ou simplesmente Tácito, foi um historiador, orador e político romano. Ocupou os cargos de questor, pretor, cônsul e procônsul da Ásia. É considerado um dos maiores historiadores da Antiguidade). 

Ocorre que o documento, ora em comento - existe a possibilidade de ser apócrifo - tenha sido adulterado por bons e fiéis monges do século XI que, para dar grandeza ao seu tempo, não se constrangeram em incriminar Nero.

A hipótese de Nero ter colocado fogo em Roma, segundo alguns historiadores, é falso em vários aspectos:

a) ao dizer que Nero atribuiu o incêndio aos cristãos, desconheciam que esse termo “cristão” só seria usado muito tempo depois, portanto distante da data do incêndio;

b) ao admitir que o imperador ateou fogo na cidade, ou o conduziu pessoalmente, mesmo não tendo feito, assistiu a tudo tocando lira. O erro ocorre uma vez que naquele décimo quarto dia antes das calendas de agosto de 817, isto é, desde a fundação da cidade Nero e sua família mais alguns comensais encontravam-se na cidade litorânea de Anzio, a centenas de quilômetros de Roma;

c) ao afirmar que Nero mandou crucificar os cristãos e, depois de besuntá-los com produto inflamável, ateou-lhes fogo para que servissem de iluminação aos jardins palacianos, ou que mandou lançá-los às feras no Coliseu.

Na última afirmação encontram-se rapidamente quatro erros. 

Primeiro, a cruz era castigo para estrangeiros; segundo, que o corpo humano incendiado não ilumina, porque carboniza; terceiro, que o hábito de lançar cristãos às feras só terá início nos tempos de Trajano (68 a 117); por último, o Coliseu só foi construído alguns anos depois, em torno do ano 80.

Pois é, a importância de se apurar com muito cuidado certos fatos tidos como verdadeiros, pois muitas vezes a mentira prevalece sobre a verdade e permanece por anos, décadas ou séculos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagens populares