Com uma
grande densidade demográfica e poucas oportunidades de emprego ou quase nenhuma
perspectiva de melhoria de vida, as grandes cidades viraram verdadeiras áreas
de confrontos pela sobrevivência. Todos lutam contra todos. Nessa luta cruel
pela paz e tranquilidade, poucos são os vencedores.
Favelas,
becos, guetos são os lugares onde a população marginalizada é jogada a mercê da
própria sorte.
Diante
dessa visão excludente alguns poucos buscam armar a sociedade para “combater”
os altos índices de violência. A ideia, aparentemente simples é a seguinte: “o
cidadão deve ser armar para uma autoproteção ou para proteção de
terceiros/parentes ou de seu patrimônio.”
Existe uma
falsa ideia que o uso indiscriminado de arma de fogo afugenta os agressores.
Há outra falsa
noção de que a mais rápida e eficiente forma de minimizar ou até mesmo acabar
com violência é estabelecer uma dura repressão policial, sendo tolerável, por
alguns, inclusive a matança de pessoas. A presente medida não é só ineficiente
como também é, em si, uma violência estatal geradora de mais violência. O que
pode, com o passar do tempo, tornar-se descontrolada.
Quem
defende tal hipótese de violência institucionalizada acha que está imune a
violência estatal, bem como seus familiares. Mal sabem que toda espécie de
extermínio torna-se descontrolada, até mesmo para o próprio Estado.
Inegavelmente,
a violência tem como causa principal a total falta de ineficiência do Poder
Público em lidar com problemas básicos de uma cidade, como a falta de escolas
de qualidade, falta de um sistema de saúde pública mais humana e democrática,
falta de desenvolvimento econômico que possa absolver a grande camada de jovens
que procura por trabalho, salários mais dignos etc.
O combate
a violência deve começar com uma postura mais sóbria no tratamento das mazelas
sociais.
Construir
delegacias, presídios, gastos com o aparelhamento das polícias, tudo é somente
uma forma de tentar frear os altos índices de violência após a consumação.
Sabemos que o combate a violência deve ser na sua origem.
Nossas
delegacias estão cheias, nossos presídios estão abarrotados de gente servindo
exclusivamente como depósitos de pessoas, o Judiciário funciona como um enorme
e lento paquiderme.
Cabe ao
Estado, em todas as suas esferas, tomar as providencias necessárias para
aprimorar todo o sistema de prevenção a violência, no sentido de tomar decisões
que façam os grandes índices de criminalidade retroceder.
Ao
Executivo cabe liberar e administrar da melhor forma possível os recursos
oriundos dos contribuintes no sentido de minimizar os efeitos da violência
urbana, investindo fortemente na construção de unidades habitacionais, escolas,
hospitais e postos de saúde. Urbanizar áreas de risco, estimular, através de
políticas públicas, o controle da natalidade. Coibir o comércio de arma de fogo
e afins, bem como estimular, através de mensagens publicitárias que a cultura
da paz deve prevalecer. Cabe também ao Executivo, cumprir as leis,
proporcionado aos presos o ensino de uma profissão, dar-lhe oportunidade de
emprego, melhoria do sistema prisional, contratar, equipar e pagar dignamente
todo o corpo policial etc.
Ao
Judiciário, cabe a incumbência de tornar os processos penais mais céleres,
fiscalizar o fiel cumprimento da lei de execução penal. Mudar a mentalidade de
que todo condenado deve ser preso. Estimular as penas alternativas, após um
criterioso processo de aferição multidisciplinar, aplicado ao condenado. Evitar
que presos comuns fiquem em contato com presos perigosos.
Ao Poder
Legislativo, cabe aprimorar as leis e buscar, dentro dos padrões
internacionais, meios de repressão estatal que respeitem o princípio da
dignidade da pessoa humana, leis eficazes no combate a impunidade etc.
Assim, com
algumas iniciativas, entre outras mais incisivas, o Poder Público tem a
possibilidade de eliminar muitas causas diretas da violência que contamina toda
a sociedade em todos os níveis.
O primeiro
passo é sempre o mais difícil, entretanto, deve ser dado. O Estado deve
reconhecer que não vem cumprindo seus deveres sociais e legais e que durante
séculos escolheu projetos públicos que favorecesse uma minoria, porém, essa
minoria que teve enormes privilégios nesse período, sofre também com a
crescente violência. A sociedade tem que assumir seu papel de destaque no
combate a origem de todos os males: a pobreza. A luta é de todos, e não só das
autoridades.

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